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Um tesouro no deserto
16-março-09  Vinhos

Os vinhos das Bodegas Chacra, excelentes Pinot Noir produzidos na Patagônia por Piero Incisa della Rocchetta, dono do Sassicaia, um dos mitos italianos.

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Sassicaia - História e mito

Alexandre Ferreira, proprietário da Expand-BH e Piero Incisa della Rocchetta” title=

A história é interessante e seu desdobramento mais ainda:

Leopoldo Incisa foi um pioneiro pesquisador sobre videiras na Toscana. Em sua propriedade em Rochetta desenvolveu 175 mudas de uvas italianas e estrangeiras e publicou duas edições de um catalogo descritivo sobre este estudo, chamando a atenção de toda a Europa. Acostumado ao consumo de grandes vinhos bordaleses como o Haut-Brion, seu sonho sempre foi o de produzir vinhos de qualidade similar no território italiano.

Quase um século depois, seu neto, o Marquês Mario Incisa della Rocchetta plantou as variedades Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc em sua propriedade La Rochetta e depois em Bolgheri, decidido a produzir um vinho de qualidade no estilo de Bordeaux.

Mario já tinha experiência com esse cultivo junto ao Barão de Rotschild, em Graves, onde o terreno característico de seixos (sassi, em italiano) se assemelhava muito ao de Bolgheri. Seus primos, da família Antinori, em vão tentaram dissuadi-lo, dizendo “deixe os vinhos para nós, você entende é de cavalos”.

Isso porque a propriedade de La Rochetta à época era famosa em toda a Europa por seus cavalos puro-sangue, onde grandes potros vencedores eméritos de inúmeros Grandes Prêmios foram criados.

Mas Mario produziu seu vinho bordalês, diferente dos vinhos rústicos italianos da época, e de 1940 em diante passou a oferecer o ``vinho da casa`` aos visitantes, que ali compareciam pela fama dos cavalos da propriedade. Esse Sassicaia - como foi chamado - passou a encantar mais e mais a todos, até que um jornalista inglês, vindo para uma reportagem sobre os cavalos, decidiu escrever sobre o vinho, que denominou de `super toscano`.

A fama do Sassicaia logo ganhou a Europa e a partir de 1968, quando passou a ser comercializado, o vinho se tornou um ícone italiano. Com o tempo e a notoriedade, mas classificado apenas como Vino da Tavola, o governo italiano concedeu-lhe a denominação Bolgheri DOC , pois `um vinho tão importante tinha de estar classificado`. A teimosia de Mario em explorar o terreno pedregoso de Bolgheri rendeu frutos excepcionais.

Na foto, Alexandre Ferreira, proprietário da Expand-BH e Piero Incisa della Rocchetta

E o deserto ?

Vamos a ele, pois a história da família mostra que o faro para terroir está no sangue...

Piero Incisa della Rochetta - atual Marquês e proprietário do Sassicaia - provou um vinho da Patagônia e decidiu investir naquela nova região vinícola.

Visitando a região, descobriu um vinhedo abandonado em Rio Negro, sem cuidados, e se interessou por ele. Procurou o proprietário, um idoso senhor e lhe disse: `Quero comprar seu vinhedo `. A resposta foi inusitada: `Não o venderei, pois é um vinhedo ruim, as videiras produzem poucos cachos, pequenos e de uvas muito pequenas também. Você terá prejuízos e me culpará por enganá-lo.

Como sua insistência não adiantou, Piero então propôs alugar o vinhedo por um ano, para experiência apenas. Trabalhou com seu amigo e enólogo Hans Vinding Diers na limpeza e recuperação do vinhedo e produziu uma primeira safra, onde teve certeza que ali estava um tesouro da variedade Pinot Noir, da Borgonha.

No ano seguinte voltou a velho senhor para adquirir o vinhedo e o mesmo lhe disse: ``essa propriedade servirá melhor para plantar maçãs, vou arrancar as parreiras``. Com muito custo, Piero conseguiu comprar o vinhedo e investiu em técnicas orgânicas e biodinâmicas naquele terroir desértico, onde chove pouquíssimo.

Só para exemplificar, a técnica usual de irrigação na região é o alagamento, que nocivamente compacta o terreno e impede a boa drenagem e respiração do solo. Hoje são plantadas entre as parreiras 11 variedades de cereais, com raízes de diferentes profundidades, que mantém a permeabilidade do solo e o protegem.

Não é feita nenhuma irrigação, apenas eventualmente, quando os verões são quentes demais. As videiras antigas se alimentam em profundidade, intimamente retratando o terroir da Patagônia.

Piero em seguida adquiriu mais dois vinhedos vizinhos, fundando a Bodega Chacra, nova plataforma vinícola dos donos do Sassicaia.

Os vinhos hoje produzidos são ao mesmo tempo exuberantes e inusitados, cada um com particularidades do território, e mostrando o que a variedade Pinot Noir pode oferecer. Segundo Piero, a Pinot Noir não tem características próprias - ela reflete o terroir em vinhos de personalidades singulares de cada lugar.

Mas os vinhos Chacra são mais que isso. Temos alguns bons Pinot Noir na América do Sul (e muitos não tão bons) mas todos compartilham um estilo nitidamente do novo mundo, mais potentes e rústicos que seus primos nobres da Borgonha, onde a Pinot Noir é a rainha.

Bodega Chacra nos traz os Pinot Noir mais europeus da América do Sul, em vinhos envolventes por sua elegância e personalidade:

Bodega Chacra Barda 2007

Vinhedos em pé franco (sem enxerto) com idade entre 10 e 15 anos, produz 20.000 garrafas / ano. Terreno pedregoso, altitude 250m, com a incrível amplitude térmica de 30ºC entre dia e noite.

A colheita é feita pela manhã, as uvas são separadas manualmente dos cachos, toda manipulação é feita por gravidade, não há remontagem. O objetivo é ter pouca extração das cascas e pouca concentração de taninos e pigmentos - plenamente atingido - garantindo sua elegância.

A fermentação inicia com maceração a frio por 3 dias, seguida de fermentação com leveduras naturais por mais 18 dias. Guardado em barricas francesas usadas (25% novas) permanece por 1 ano até o engarrafamento.

O vinho tem cor leve, em tom de cereja acinzentado. Os aromas são típicos, de fruta vermelha, com toques terrosos de cogumelo e trufa, e leve couro. Muito delicado e elegante, mostra potência alcoólica e marcante persistência - característica dos vinhos biodinâmicos, explica Piero.

Preço R$ 130,00 - bom custo benefício

Bodega Chacra ``Cincuenta y Cinco`` 2007

O nome vem da data de plantio do vinhedo, 1955, hoje com 54 anos de idade. O terreno é argiloso, parte do vinhedo foi recondicionada, a produção é de 9.200 garrafas / ano.

As uvas são colhidas pela manhã e mantidas refrigeradas até o manuseio. De 50% a 80% (conforme o ano) são fermentadas com o cacho inteiro, com maceração inicial a frio por 15 dias com revolvimento manual, seguida de fermentação natural por mais 7 dias.

Estagia em barricas francesas novas e usadas (50%) por 1 ano. Não é filtrado, apenas decantado naturalmente.

O vinho tem cor intensa rubi-cereja e apresenta aromas de frutas, minerais e terrosos, em um conjunto fresco que evolui bastante na taça.

Na boca é fresco, mineral, bastante enxuto, com taninos presentes, mas delicados. Preenche o paladar com frutas vermelhas e negras bem maduras, couro, notas minerais e ótimo frescor. Um vinho de excelente harmonização, elegante e potente.

Preço R$ 180,00 - vale o que custa.

Bodega Chacra ``Treinta y Dos`` 2007

Bodega Chacra ``Treinta y Dos``” title=

O nome vem da data de plantio do vinhedo, 1932, hoje com 77 anos de idade.

Vinhedo de apenas 3 hectares em Mainque, o terreno é pedregoso, as parreiras são antigas e vêm sendo substituídas individualmente quando alguma delas morre. A produção é baixa, de 7.400 garrafas / ano.

As uvas são colhidas pela manhã e mantidas refrigeradas até o manuseio. Maceração inicial a frio por 5 dias com revolvimento manual, seguida de fermentação natural por 21 dias. A decantação é feita por gravidade.

Estagia em barricas francesas novas por 1 ano, pois é um vinho com maior concentração de taninos. Não é filtrado, apenas decantado naturalmente.

O vinho tem cor intensa, os aromas são delicados a princípio, abrindo bastante na taça. Notas de terra úmida, trufas, frutas negras bem maduras e baunilha adocicada vinda da madeira, bem integrada.

Os taninos são muito macios, mostra notas minerais e grande elegância, a estrutura na boca é notável.

Apesar de jovem é perfeitamente bebível agora, mas deve crescer muito ao longo do tempo, tornando-se um vinho excepcional.

Preço R$ 420,00 - alto, justificado pela qualidade e pequena produção.

Esse resultado atesta firmemente o ``faro`` dos Incisa pelo terroir. Como Mario, Piero intuiu um potencial, trabalhou e pesquisou para encontrar esse tesouro no deserto e fez dele vinhos que estão sendo descritos como `` o melhor Pinot Noir da América do Sul``.

Parabéns, Piero, seus antepassados devem estar orgulhosos do novo irmão do Sassicaia...

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