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Mocali - A Tradição do Brunello
06-julho-09  Vinhos

Uma degustação vertical de Brunellos de Montalcino da Mocali nos mostra o potencial que faz dessa denominação uma das mais prestigiadas e respeitadas do mundo.

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Degustação Vertical - uma oportunidade

São raras as oportunidades de se comparar diversas safras de um mesmo vinho - uma degustação vertical - pois essa disponibilidade quase sempre se baseia em estoques do produtor ou de um importador.

No Brasil os comerciantes não têm a tradição de guardar vinhos para vender em seu melhor momento - na Europa são chamados de Colecionadores.

Esses comerciantes especiais possuem estoques valiosíssimos, que ficam estacionados durante anos e anos à espera do momento ideal para consumo e dos compradores dispostos a pagar o preço normalmente cobrado por este `envelhecimento´ adequado. Um ganho mais que merecido.

A Casa do Vinho

Foi uma grata surpresa receber o convite do Armando Martini, proprietário da Casa do Vinho, importadora sediada em Belo Horizonte.

Possui ótimo portfolio onde figuram dezenas de produtores exclusivos, selecionados a dedo pelo Armando. Destaque para os italianos, o sangue da família aparece nesse momento.

Pois Armando Martini coleciona vinhos de seus representados (e outros também) para seu acompanhamento e por diversão mesmo, amante do vinho que é.

Desse tesouro pessoal saíram as garrafas de Brunello di Montalcino Mocali para a degustação vertical.

Um detalhe: nenhuma das safras degustada está mais à venda, a safra 1996 nem a vinícola tem amostras guardadas (brincando, Armando disse que vai exportá-las para a Italia...)

A `azienda´ Mocali

A Mocali foi fundada em 1960, seu proprietário foi também um dos 25 fundadores do Consorzio da denominação Brunello di Montalcino.

O primeiro produtor de Brunello foi Biondi-Santi, em 1888.

Os atuais proprietários são Tiziano Ciacci e sua esposa, Alessandra. A família tem relação distante com Ciacci Piccolomini d`Aragona, outra produtora de Brunellos.

Expandindo a vinícola familiar, iniciaram em 1987 a aquisição de novos vinhedos, sendo 1990 sua primeira safra operacional na nova gestão.

Os Ciacci possuem 32 hectares próximos à histórica cidade de Montalcino. Ali convivem no típico ambiente toscano florestas naturais de pinho e carvalho, olivais e 9 hectares de vinhedos, sendo 6 hectares classificados na DOCG Brunello Di Montalcino.

Os vinhos são elaborados exclusivamente com a variedade Sangiovese Grosso, uma variação da Sangiovese que - curiosamente - produz cachos pequenos de uvas também pequenas.

Outra curiosidade é que em Brunello as videiras são substituídas a cada 25 anos! Não faz parte desse terroir a evolução de `vinhas velhas` tão prestigiada na Espanha.

Aqui na nossa Serra Gaúcha também se faz o mesmo, entre 25 e 30 anos.

A Mocali também produz um delicioso I Piaggioni Rosso Toscano, vinho de um excelente custo-benefício.

Importante lembrar que os Brunellos da Mocali têm preços bastante atraente, se comparados a vinícolas mais famosas, sem dever nada à qualidade dos vinhos.

Nessa noite especial, Alessandra Ciacci esteve presente em Belo Horizonte, contando muitos detalhes de sua vinícola e de seus vinhos, com seu jeito simpático e alegre.

São produzidas apenas 30.000 garrafas por ano. Alessandra nos conta que não pretende ampliar a produção, mas a qualidade.

Os vinhedos estão localizados a 350m de altitude, com densidade de 3.000 a 5.000 plantas por hectare, sobre solos de argila fracionada e rocha calcárea.

Os Vinhos

Foram degustados os Brunellos di Montalcino Mocali das safras 94, 95, 96, 97 e 99. Não existem garrafas 1998 disponíveis.

Os vinhos são elaborados em tanques de aço, sendo maturados durante 2 anos em tonéis de carvalho esloveno de 500 litros (botte) e em tonéis também de 500 litros de carvalho francês.

Alessandra recomendou a abertura das garrafas com 3 horas de antecedência, não foram usados decanters (?).

A sequência de degustação foi cronológica - do 94 até o 99 - onde os 20 contemplados, entre enófilos e clientes, puderam apreciar tanto a evolução dos vinhos quanto a diversidade de estilos entre as safras presentes.

Minhas impressões foram:

1994

Cor intensa e profunda, bordas granada e centro rubi, denso na taça.

Aromas de frutas bem maduras, frutas secas, terroso (sous-bois), flores secas, noz moscada, alguma nota animal.

Na boca é fresco, tem adstringência delicada e taninos finos, especiarias picantes, nota de alcaçuz, fundo balsâmico. Evolui bastante na taça (não foi decantado) e tem final longo com frutas maduras.

Um vinho encantador, soberbo, que pede harmonização.

1995

Cor de média intensidade, borda tijolo, centro granada, muito denso com lágrimas espessas.

Aroma marcante de especiarias, seguido de floral, frutas vermelhas maduras e madeira bem comportada.

O ataque de boca é aveludado, em seguida picante, evoluindo para frutas maduras. O final é longo com amargor nítido.

Este vinho surpreendeu pela diferença de estilo com o anterior, mais austero e maduro. Muito agradável, aponta para harmonização mais sutil.

Provei este vinho em 2004, estava ainda jovem, menos complexo, um `infanticídio´.

1996

Cor de media intensidade, borda tijolo, centro rubi não muito profundo, levemente turvo, bastante denso.

Aroma de frutas em compota, frutas vermelhas maduras, baunilha.

Na boca é fresco, com frutas vermelhas frescas e maduras, leve floral e baunilha. Final longo de frutas frescas, com delicado amargor.

Neste vinho o coração balança, porque seu estilo - também diferente dos anteriores - é cativante. A presença maciça de frutas sugere nova harmonização, mas principalmente mais evolução, podendo ainda crescer em complexidade.

Uma curiosidade: uma das garrafas da degustação se mostrou estragada, sendo aberta outra no momento. Como as outras haviam sido abertas 3 horas antes, foi usado o dispositivo Vinturi (que aera o vinho concentradamente) o que fez que essa garrafa se mostrasse bem diferente da sua irmã, estando mais evoluido, macio e complexo. Ficou a pergunta sobre a não decantação e prestamos atenção à evolução na taça.

1997

Esta foi uma safra mítica na Toscana, com atributos para grande evolução.

Cor rubi intensa, com bordas quase granada, bastante denso.

Aroma de café, casca torrada, tostado, couro, pêlo, pimenta, frutas em passa.

Ataque de boca aveludado, taninos macios, intensos, amargor nítido, frutas vermelhas bem maduras, couro, leve defumado.

Final longo, este vinho enche a boca de sabores e presença, um soberbo Brunello com toda a potência, nobreza e riqueza que fizeram o prestígio da denominação. Pode evoluir com profundidade, imaginamos até onde...

1999

Cor rubi intensa, bordas granada, muito denso.

Aroma carnudo, exuberante, mostrando frutas maduras vermelhas e negras, couro, tabaco, um conjunto imponente.

Na boca o ataque é ainda mais encorpado que se imagina, evoluindo rapidamente para uma presença com grande frescor, muito agradável.

O final é longo, frutado e complexo.

Um vinho exuberante, ainda jovial, com grande perspectiva de evolução.

A conjunção de frescor jovial e complexidade madura é sensacional.

Conclusões - reflexões sobre a maturidade

Recentemente voltamos em nosso Forum Enológico a uma discussão sobre o limite de longevidade dos vinhos chilenos, que seria 10 anos, chegando a uma conclusão de que possivelmente no passado recente (até 1996) isso seria verdade mas que as safras posteriores mais modernas tiveram um perfil de elaboração e de clima que agora permitem uma evolução mais alongada. A conferir.

Voltando aos exuberantes Brunellos da Mocali, minhas prefêrencias recaem sobre o primeiro (1994) e o ultimo (1999) por absoluta prefencia pessoal.

O 1994 está encantador em seu apogeu de maturidade, o 1999 é poderoso, rico e descontraído, ambos excelentes companheiros de reflexão e principalmente de pratos especiais.

Ainda restam ao 1994 vários anos de caminhada, mostrando que o terroir de Montalcino dá aos vinhos essa capacidade de viver muito e crescer sempre.

Me despedindo do Armando, comentei minha admiração pelo 94, ao que ele respondeu balançando sua taça ainda com um pouco de vinho: aqui ! é realmente sensacional!

Um vinho de 15 anos de idade, em pleno esplendor, riqueza, complexidade, personalidade e nobreza. Esta é a essência Brunello, levada à condição de arte pelos Ciacci na Mocali.

Uma conclusão triste é que esses prazeres estão reservados a poucos, pois cada vez mais bebemos vinhos mais jovens, pois quase ninguém compra vinhos para esperar evoluir. Os produtores tradicionais, inclusive de Barolos, estão mudando suas técnicas para permitir o consumo imediato, em detrimento de um futuro resplandescente, que talvez nunca mais exista, pois serão bebidos antes.

As safras disponíveis do Brunello Mocali são 2001 e 2003, a 2004 está para chegar e promete muito. Compre agora e beba a partir de 2012, 2015, quem sabe mais tarde ?

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