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As Bodas de Canaã
13-dezembro-09  Vinhos

Uma provável verdadeira história do milagre da transformação da água em vinho.
Artigo de Felipe Rudge.

FELIPE RUDGE

Felipe Rudge é físico, atua em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, com ênfase em óptica.

Originalmente carioca, hoje mora e trabalha em Campinas, mas mantém seus vínculos com a Cidade (ainda) Maravilhosa.

É um amante das Artes e da Natureza (mar e montanha) e aprecia tudo que a vida tem de bom.

Já participou de cursos de enologia, em níveis básico e avançado, e teve oportunidade de visitar (detalhadamente) vinícolas no país e no exterior (Américas e Europa), acompanhando de perto os processos, e até dormindo com os vinhos em repouso (no Vale dos Vinhedos). Tem três filhos, Letícia, Denis e Deco (André Felipe).


Esta é uma história tida como verdadeira. Nem se pode dizer que não tenha ocorrido como aqui relatado, há bem uns 2000 anos, nas terras distantes que seriam o berço do cristianismo. Os detalhes estão um pouco romanceados, mas tratam-se de locais e fatos históricos, uma historia antiga com boas comprovações arqueológicas. Trata-se também da celebração do vinho, a bebida mais apreciada desde a mais remota antiguidade, e que permanece até hoje como destaque em qualquer comemoração de prestígio.

Bem, é fato que existe essa polemica se é Caná ou Canaã, ou Canaan.

Tanto faz, depende de quem vem de fora, e que tradição traz consigo; aqui entre meus conhecidos chamamos Canã, embora haja também os que insistem em Qanan. Não tem problema, hoje todos conhecem a cidade; tornou-se um importante centro de comércio, e rota de caravanas. Eu mesmo não sou daqui, como a maioria das pessoas que hoje vivem aqui. Nasci e fui criado em Tiro, a bela cidade fenícia, um porto importante, mas conforme as rotas do interior foram ganhando importância, Canaan, Cafarnaum e Magdala também cresceram, e hoje parece que os negócios estão melhor por aqui... E a mim parece que esta mansão do meu senhor – muito rico e importante comerciante, que também veio de outras terras, pelos lados de Arimateia -- é ainda uma referencia na região. Todo mundo vem aqui. A casa é belíssima, amplos salões, belos jardins, elegantes muros, que além de enfeitar, deixam os “indesejados” fora, garantem conforto e privacidade, e bloqueiam, acima de tudo, os malditos ventos do leste, que secam e arrasam tudo. E temos também o privilégio do especial sistema subterrâneo de águas, com as imensas cisternas que não deixam faltar água pura em nenhuma época do ano, mesmo quando bate o (maldito) vento seco do Leste, anunciando o Inverno.

Nesses subterrâneos, sempre frescos e agradáveis por todo o ano (e olha que as temperaturas do Verão e do Inverno eram bem extremas); mantínhamos os viveres, as frutas secas – ah, as tamaras e as ameixas...—os odres de azeitonas, os azeites, e os vinhos!! Aí preciso explicar melhor.

Como disse, sendo Canaan rota das caravanas pra leste e norte, indo e vindo, tudo de bom passava por aqui, as melhores mercadorias e especiarias da Síria e do Oriente, rumo a Jerusalém. E os vinhos... maravilhas dos sopés das montanhas para além do Monte Hermon. Tínhamos nossos bons fornecedores, que garantiam sempre odres cheios.

Meu mestre Joseph era além de muito rico, um homem viajado e muito culto. Sempre os senhores da lei, estudiosos e mesmo músicos e artistas, estavam nesta ampla e acolhedora mansão, ceando, debatendo e organizando atividades.

Certa vez apareceu um cidadão muito especial. Era incrível como ouvia atento, e como falava! O tom e a harmonia de sua voz encantavam a todos. Era impossível discordar do que dizia, sempre com uma autoridade firme e suave. Parecia um deus.

Uma vez estavam reunidos meu mestre Joseph, e mais alguns senhores. O ilustre senhor estava presente –era jovem, parecia um rei, trazia em si uma nobreza natural -- estava quase sempre, acompanhado daquela bela mulher. Seus olhos (dela) castanhos como amêndoas, cabelos soltos (isto um pouco incomum naquela época), roupas discretas -- ouvi dizer que vinha de Magdala, cidade não muito distante daqui, ás beiras do Genasaré; não falava, ao menos nunca vi nem ouvi. Era muito atenta e tranquila, e ele tinha grande carinho por ela. Mas como contava, eu servia os vinhos, sempre. Era meu dever e orgulho. De repente, ele virou-se e falou comigo, de um modo simples e inesquecível. Disse: “Excelentes vinhos, onde guardam?” Ora essa, que surpresa. Ninguém perguntava “onde guardam”, era sempre o que é, de onde vem, onde comprou. “Onde guardam” merecia certamente uma resposta adequada. Convidei: “Gostaria de conhecer nossas adegas? Mestre Joseph tem muito orgulho delas, e eu tenho a honra de cuidá-las”.

Descemos todos. Eu liderava, o ilustre convidado e sua companheira seguiam, depois os outros cavalheiros e Mestre Joseph cerrava fila. Ao chegarmos, acendi as lamparinas a partir daquela pequena que sempre ficava acesa. Virei-me pra falar com Mestre Joseph, e vi algo deslumbrante.

O homem de Nazaré (esta era sua cidade, vizinha daqui) estava um pouco mais ao fundo, e vi num breve instante, como uma aura que o circundava, e parecia que essa aura tocava também a mulher. No instante seguinte, quando os outros se aproximaram falando e conversando sobre a maravilha de engenhosidade daqueles subterrâneos, dissipou-se. Aquele momento mágico, breve, poderoso, permanece até hoje vivo em minha memória – que força impressionante. Bela adega, todos concordaram. E o suave aroma de mosto dos vinhos descansando, e o agradável frescor daquele subsolo nos envolveu a todos, naquele clima silencioso, tranqüilo, sempre ligeiramente úmido por causa das cisternas. (Por vezes eu mesmo esquecia do tempo quando estava ali nos meus afazeres...).

Alguns anos depois, a filha de Mestre Joseph cresceu, e ia se casar com o filho de um grande amigo seu – um rico comerciante, naturalmente. Fizeram questão de quebrar um pouco a tradição e partilharam a festa. Ou seja, tornou-se a maior festa como nunca tinha ocorrido em toda região (e duvido que jamais venha a ocorrer outra como essa). Hóspedes de toda parte – Síria, Lidia, Frigia, até do Sinai. Comidas bebidas, frutas, especiarias, hospedagem, estalagem, um sem-fim de providencias. Mestre José (se permitia chamar assim só em casa) perguntou-me “Temos vinho bastante?”, “Sim, sem dúvida”. Mas todos um dia erram. E eu errei. Tínhamos vinho bastante, sem duvida, mas ninguém podia imaginar que todos beberiam tanto. E bem antes que acabasse a festa, acabou o vinho!

Que fazer? Era uma desgraça para mim, e uma vergonha para Mestre Joseph. Sua casa famosa pelos vinhos estava sem vinho. Mas vez por outra parece que milagres acontecem. O ilustre senhor, que naturalmente estava entre os convidados, disse-me: “Vamos á adega”. Eu ia responder que era inútil, que o vinho tinha acabado, et cetera e tal, mas não pude dizer nada, apenas descemos com dois ajudantes. Havia mais ao fundo três ou quatro grandes odres antigos, que quase não usávamos; ele foi direto pra eles. Pediu um bastão de cedro, daqueles que usávamos para mexer os vinhos nos odres. Constatou que no fundo de três dos grandes odres ainda havia uma pasta negra, aromática, doce, muito concentrada. Virou-se e disse: “Diga a Mestre José que o problema está resolvido, e diga aos convidados que logo terão o melhor vinho que jamais tomaram.” Dito e feito. Parecia um milagre.

Lenta e cuidadosamente íamos adicionando água (das cisternas, claro) e o vinho ia renascendo dos odres. Logo logo, tínhamos grandes quantidades de vinho da melhor qualidade. Todos os convidados e comensais, centenas, ficaram maravilhados com o vinho que tinha sido “guardado” por último.

Logo se espalhou a palavra de que o ilustre senhor tinha operado milagres na adega. Todos beberam muito e dormiram bastante. Felizes. Eu também, feliz, realizado, dever cumprido. Aquele homem tinha me salvado!

Aquelas bodas ficaram famosas na região, e além. A historia das águas de beber transformadas em grande quantidade em vinho da melhor qualidade, espalhou-se e perdurou por muitos anos. Aquele cidadão especial não apareceu mais. Parece que tinha ido pros lados de Jerusalém e andou tendo problemas com o governo. Nunca mais o vi, nem sei bem o que aconteceu; Mestre Joseph não quis comentários. Essas coisas eu não entendo, cuido do meu trabalho, assim fico bem. O certo é que guardo comigo a boa lembrança de ter tido o privilégio de trabalhar -- ainda que um só dia – com aquele homem incrível. Foi pra mim algo inesquecível. Parecia mesmo que tínhamos (na verdade, ele) operado um milagre !!

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