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Cartas de Vinhos
25-janeiro-10  Opinião

As cartas de vinhos dos restaurantes podem - e devem - auxiliar na formação da cultura do vinho nos consumidores brasileiros.

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Cartas de Vinhos

Nesses quase 13 anos de envolvimento com o vinho, dos quais 5 como representante comercial, uma de minhas preocupações sempre foi com as cartas de vinhos dos restaurantes.

Esse período coincide com a “descoberta” do vinho pela maioria dos atuais consumidores brasileiros, então é de se esperar que a cultura do vinho venha evoluindo, mas ainda seja bastante nova para todos os envolvidos – nesse rol incluídos proprietários de restaurantes e sommeliers.

Eu e minha esposa cultivamos um hábito de sempre olhar as cartas de vinhos dos restaurantes que visitamos em viagens e passeios, o que nos fornece um panorama da ofertas de rótulos, dos preços praticados, das escolhas dos estabelecimentos e – triste realidade – dos erros na redação das cartas de vinhos.

Certamente a profusão de vinhos importados presente em nosso país hoje – cerca de 22.000 rótulos – garante a presença de vinhos dos mais variados países, com sua língua, suas Denominações de Origem, suas regiões e com certeza nomes e expressões apoiados na história do produtor, da família, do local, muitas vezes palavras de grafia difícil e bastante diferente da nossa língua. Rótulos alemães, húngaros e gregos exigem muita atenção !

As cartas de vinhos são montadas pelo estabelecimento, geralmente em um computador, impressas no local e postas a girar pelo salão, com ou sem ajuda de um sommelier. Hoje todos temos uma gráfica particular em cima da mesa, basta criatividade e vontade para produzir belos impressos !

Infelizmente a quantidade de erros encontrada é grande, causando uma desinformação, ou pior, uma má informação do consumidor, também leigo. Essa situação não se justifica, pois o trabalho de quem monta a Carta é relatar ali os vinhos disponíveis para venda, vinhos que foram comprados e estão a pouca distância da gerência e dos consumidores.

Confesso que nos últimos 6-8 anos encontrei apenas 6 cartas totalmente sem erros, entre centenas que olhei. Parabéns aos realizadores, ou puxão de orelha nos demais ?

O que me intriga é que basta LER o que está no rotulo e copiar na carta, não é preciso falar nenhum idioma estrangeiro, apenas prestar atenção e conferir após digitar. Parece difícil ? Pelo visto sim.

Comecemos pelo clássico Prosecco, nome do espumante tão difundido por aqui, podemos achar como Proseco, Prosseco e Prossecco, uma beleza. Cabernet pode ser Sauvigon, Sauvinon e até Sovinhon ! Equívocos ortográficos desse tipo são muito frequentes... A região de Mendoza se torna Mendonza, Mendonça...

A falta de informações completas sobre os vinhos é outro ponto grave: falta safra, nome do produtor, parte do nome do vinho. O clássico “Vinho italiano Valpolicella” sem mais informações é comum. Faltou dizer o mais importante, qual o produtor ? Espumantes podem ser Brut, Tradicional, Charmat, Demi-Sec, não são todos iguais...

Eu sei que é difícil, mas figurar na carta safra 2006 e ouvir “só temos a 2007” é um pequeno pecado, principalmente em restaurantes mais qualificados, com vinhos também acima da média, onde a escolha de safra faz diferença. Uma medida viável é não informar a safra na carta e deixar a informação para o sommelier.

Falando nele, o sommelier, por vezes ele não tem acesso à montagem da carta, não é ouvido e não tem oportunidade de sugerir complementos ou correções. Senhores proprietários, valorizem seus sommeliers ! Todos os bravos rapazes e moças que escolhem essa profissão são entusiastas do vinho, vale a pena dar a eles o espaço que merecem, seja na escolha (ou rejeição) de vinhos, na montagem da carta, nos detalhes do serviço, enfim, na sua área de trabalho.

Pode parecer preciosismo, mas falar do vinho corretamente é uma obrigação dos profissionais envolvidos, é uma contribuição ao desenvolvimento da cultura do vinho em nosso país tupiniquim e um respeito aos produtores que colocam trabalho e sonhos dentro das garrafas.

Aos leitores, convido a ler as cartas com olhos críticos e sinalizar os erros ao restaurante: uma campanha pelas carta corretas! O vinho agradece.

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