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Relatos do Vamos à Montanha 2010 - Parte 2
20-setembro-10  Evento

O confrade Azeredo nos brinda mais uma vez com seus poéticos e saborosos relatos sobre o encontro Vamos à Montanha do Fórum Enológico.

JOSé LUIS AZEREDO

Azeredo é médico, enófilo e um grande estudioso de vinhos.

Profundo conhecedor da vinicultura e dos vinhos de Portugal, é um dos esteios do conhecimento no Forum Enológico da Academia do Vinho, e um dos mais antigos participantes.


TSV - Traga seu Vinho

O TSV, como sabem, é o jantar do Traga o Seu Vinho.

A noite estava muito fria, a sala também, apesar das lareiras e aquecedores. Nelma e eu sentamos juntos com a Vera, Agilson, Carlos Raices.

Como no ano passado ficamos a seco até se liberar a mesa do vinho, este ano levei para fazer a boca um Julian Chivite Gran Reserva 1998. Abrimos e... delicia, a Espanha engarrafada.

Este ano mudou-se o esquema para melhor. Em vez de cada um pegar o microfone e se apresentar, o Luiz Otávio colava uma etiqueta no vinho trazido com o nome do(s) doador(es), anunciava no sistema de som, desarrolhava e colocava na mesa para ser bebido. Ficou mais rápido, permitia que as pessoas se servissem da comida e atestassem os copos, sem ter espera.

O nosso vinho foi Dinastia Vivanco Reserva 2004, na carateristica garrafa barroca. Tempranillo 90% e Graciano 10% com 24 meses de madeira e outros tantos na garrafa, fazem um vinho classico da Rioja, de uma cor rubi brilhante, com aromas intensos frutados de negras, bala toffee, balsamicos, boa estrutura, escorado numa acidez equilibrada mas macio de tanino, que passa lembrando-nos da sua "crianza” em madeira. Um excelente representante do que é a Rioja no estilo antigo.

Provei vinhos vários, brancos e tintos, com os frios, as sopas e o fondue de queijo. Como são ofertas do coração, quase sempre são bons.

Com as frutas do fondue de chocolate tomei Moscatel Bacalhoa, obrigado para quem o levou.

Digam aqui o que levaram, para nos lembrar do que bebemos. :D

A turma do petit comitè fez os seus sinais, já eram mais de 23 horas. No bar, media luz, o grupo se reuniu. Alguma fotos para registro do momento e novamente a magica aconteceu. A mesa encheu-se de garrafas. Abrimos o Super Toscano 2000 (?) do Luiz Otavio para começar os trabalhos. A seguir, o Ferreira Reserva 92 do Guilherme Gazzola, depois, dois reis, Carcavelos Herdade dos Pesos 90, do Tufi e Porto Vintage Borges 63 do Rodrigo Mammana.

Estes encontros enchem-me de emoção. Primeiro, por poder provar grandes vinhos raros, unicos, especiais, segundo e sobretudo, por constatar e ser agraciado com a generosidade destes amigos. Bem hajam vocês.

O Toscano era potente e bem carateristico, o Ferreira Reserva 92 é portentoso nos seus 18 anos. Por sortes da vida tive oprotunidade de o provar algumas vezes, e acho que é igual ou melhor que Barca Velha.

Carcavelos Herdade dos Pesos é um vinho que se produz em quantidades minimas, está quase extinto. Os 20 anos não foram nada para ele, o vinho estava fantastico, um generoso inesquecivel, talvez um Preto Martinho amante de uma Periquita, mas enciumado de um Espadeiro, topazio de cor, macio, dulcor suave, perfumado de caixa de charuto, amendoas, castanhas glaceadas, infinito na boca.

Porto Vintage Borges 1963, raridade do melhor ano vintage do seculo XX. "Um vintage apoteose” escreveu sobre o ano Chantal Lecouty. Todas as empresas declararam, foram Vintages Classicos.

Este Borges 1963 que provamos, nos seus 47 anos tinha a suntuosidade de um Rei, o rei dos vinhos. Fantastico, fenomenal, na cor ambar, na maciez de encher a boca, com aromas de tudo o que se quisesse encontrar, o traço de vinagrinho a lhe dar elegancia, o infinito sabor no palato final.

Dois vinhos que dão vontade de nunca mais escovar os dentes.

Precisava dormir, para o dia sequinte precisava estar lucido. Eram 2 e tantas da matina quando a cama me recebeu. Não lembro se escovei os dentes. :D

PS: foi aqui que lembrei do Edilson e da Lú a segunda vez.

Os Alentejos

O sabado chegou. Acordamos cedo, manhã fria de inverno mas, o sono na montanha é mais revigorante e energetico que na cidade. Acordamos alegres, dispostos.

Descemos para o café onde encontrei o coordenador dos Vinhos do Alentejo, o gigante Eduardo Torres; Ás 9 na sala, OK! ás nove na sala.

A organização do VAM está bem "azeitada”. Quando lá cheguei um pouco antes das 9 horas, já se encontravam 2 ajudantes para começar a azafama de deixar tudo em ordem, os vinhos, os copos, o projetor, o computador, os papeis, as mesas; quantos copos? são dez vinhos dá 310, lá ia alguem arrumar, o projetor é em cima, ia outro buscar a escada, o gelo para o branco, as folhas de anotação dos vinhos, tudo ia se compondo, sobre as ordens e vigilancia do gigante coordenador.

Coloquei os vinhos na ordem, abri um a um de rolhas perfeitas. Porque sou cheirador, aspirei, todos ótimos.

Recomendo que quando abrirem uma garrafa não cheirem a rolha, só a sintam elastica e vejam a cor residual, cheirem a boca da garrafa; quando o vinho é bom é nesta hora que se soltam todos os aromas aprisionados, o vinho solta a sua alma e é só nesse instante que se pode captá-la inteira, é extasiante.

Bom, a ansiedade diminuiu, mas o frio na barriga ainda andava por lá.

As pessoas chegavam e ocupavam os lugares, a conversa corria mais sussurrada que aberta, o vinho de fazer a boca foi servido, Esporão Private Selection Branco 2008, na tela a imagem - Vamos á Montanha / Vinhos do Alentejo, Mariza cantava o fado.

Olhei a sala, muitos rostos conhecidos, sorridentes, no pensamento apareceu; caracas, estou entre amigos, não preciso sofrer, precisamos é nos divertir.

Falei sobre Portugal do nosso amor, dos 3 Alentejos, Alto, Central e Baixo, contei histórias, vimos o passado, o presente, olhamos o cristal do futuro, falamos sobre as castas, os vinhos, os caminhos, sobre a gastronomia, o turismo, onde ir, conhecemos o povo e o que de bom ler sobre o Alentejo.

Falei muito, demais para uma só pequena amostra de vinho branco.

Ninguem dormiu, sequer cochilou, então está tudo bem, estamos em Paz Alentejana.

A prova seguiu com 3 baterias de 3:

Casa de Santa Vitória Reserva 2006- Baixo Alentejo

Esporão Private Selection 2005 - Alentejo Central

Altas Quintas Reserva 2005- Alto Alentejo

Herdade dos Grous Reserva 2005- Baixo Alentejo

Tapada Coelheiros Garrafeira 2004-Alentejo Central

Herdade do Perdigão Reserva 2005- Alto Alentejo

Cortes de Cima Reserva 2004- Baixo Alentejo

Paulo Laureano Alicante Bouschet 2005- Alentejo Central

Mouchão Tonel 3-4 2005- Alto Alentejo

A conversa foi subindo no tom, os vinhos debatidos, todos diferentes, crescentes, a potencia do Alto, a elegancia do Centro, a maciez do Baixo, mas nem tudo era tão fácil, as nuances das castas, das madeiras, as opiniões se cruzavam, os vinhos se modificavam na taça, o extase nos olhos, a felicidade nos rostos, a indecisão de não se saber qual era o melhor, o preferido...

Tudo isto mais uma vez me deu a certeza que é fantastico se provar vinhos com quem sabe, com quem os conhece e aprecia. É um aprendizado infinito.

O pouco que sobrou em algumas garrafas foi redistribuido, para que a memoria melhor registasse.

No fim fizemos duas fotos, uma oficial do evento com todos serios, a segunda com o espirito da degustação, com todos brindando alegremente. Sorrio toda a vez que as vejo.

Bateu a fome, era hora de almoçar. Foi quando aconteceu outra mágica.

Dolce Italia

No almoço havia varias mesas enfileiradas com confrades almoçando.

Na mesa do buffet estavam dezenas de garrafas, dos vinhos que sobraram do TSV.

Num passe de magica na nossa apareceu uma garrafa de Mas Igneus FA 206 97 e outra de T da Terrugem 2000, trazida pelo Julio Anselmo. Como ele estava com o olhar de recem casado, disse que era um T da Terrugem, mas o pessoal maldoso afirmou que era um T de outra coisa. Ele não negou :D .

A felicidade dele foi contagiante, a alegria da mesa extravazante.

Que assim seja para sempre e sempre mais, meu amigo.

Os dois vinhos estavam deliciosos, o Priorat e o Alentejo a brilhar.

Nós levantavamos para pegar os vinhos das outras mesas, os amigos vinham provar os nossos, foi quando pensei, e não é que é isto uma festa em familia. Certamente sim.

Como organização o VAM é profissional, eficiente. Tudo acontece de forma aparentemente façil, transparente, porque está estruturado numa equipe que o cuida nos minimos detalhes. Para os participantes é de um desfrutar tranquilo, relaxante, prazeiroso. É um estar seguro entre amigos, familiar.

É um estilo de evento grande e raro.

Depois do almoço fomos caminhar, descansar, respirar o ar que nos escapa em Sampa. À tarde participamos da degustação "Dolce Italia"

O Tufi trouxe um sommellier e uma assistente para cuidar dos vinhos. Isto é só para quem pode ;-)

Eu, enxerido que sou, fui ajudar a abrir as garrafas que eram muitas de 375ml. Numa delas a rolha estava durissima, a minha consegui tirar inteira com muito cuidado, mas a outra precisou de laminas e a pericia do Agilson para sair. Parecia uma rolha de cortiça aglomerada.

As palestras do Tufi são show. Informação em catadupa, de vinho, de musica, de arte e até uma chamada comica e sutil, para se desligar os celulares.

Os vinhos foram:

1- Araldica Asti Spumante NV- Piemonte

2- Caprili Moscadello di Montalcino 2007- Toscana

3- Franz Haas Moscato Rosa 2004- Alto Adige

4- Col Sandago Passito IGT 2004- Veneto

5- Fattoria di Basciano Vin Santo 2003 - Toscana

6- Pieropan Recioto di Soave Le Colombare 2006- Veneto

7- Colosi Malvasia delle Lipari 2005- Sicilia

8- Feudi di San Gregorio Privilegio 2002- Campania

9- Donnafugata Passito de Pantelleria Ben Ryè 2006- Sicilia

10- Fausto Maculan Acininobili 1997- Veneto

Uma delicia ascendente, uma doce degustação para ficar na memoria para sempre. Meus preferidos 7, 9 e 10, aromas finissimos, equilibrio majestoso, sabores infinitos.

Muitas outras degustaçãoe houveram que eu gostaria de ter participado; o evento ficou tão completo, que, no fim, fica sempre um sentimento de querer mais. Eis duas por quem pago arrependimento: Degustação Premium- França X Nova Zelândia e Grandes vinhos de Pomerol e Saint-Emilion, onde tinha Lafleur, Figeac, Evangile, Petrus, além de muitos outros do mesmo calibre.

Mais emoções nos esperavam, a noite ainda estava por vir.

Jantar de Gala

A noite estava reservada ao Jantar de Gala que, como em todos os anos, é de gala por causa dos frequentadores, não pelas vestes como em outros se vê.

A nossa mesa repetiu a do almoço. Agilson e Vera, Julio Anselmo, Ana e Guilherme, eu e Nelma numa mesa redonda, que são as melhores por se poder falar com todos e a todos ouvir. As conversas corriam soltas, iam das serias ás piadas num piscar de tempo.

O jantar foi servido;

Canapé de salmão defumado / Canapé de presunto de Parma/Jamon

Estavam bons e, dos vinhos, provei Jerez Fino El Maestro Sierra, classico, de cor bonita, muito bom de aromas, amendoas torradas, ervas finas, salino não esperado, foi bem com os canapés, melhor com o presunto cru que com o salmão. O Madeira Justino's 3 anos seco não provei.

A seguir a salada e a entrada,

Salada crocante de alface americana e endivias, com manga, gorgonzola, nozes e Grana Padano. Casquinha de frutos do mar. Com o Espumante Casa Valduga Extra Brut Gran Reserva, ficaram certissimos.

Primeiro prato:

Truta com amêndoas

Pure de batata doce e mandioquinha

Molho de carambolas

A truta estava excelente, macia, suculenta, no ponto certo de cozedura. Cruzava bem com o pure e o contraste das carambolas. O vinho que provei foi o Salton Virtude Chardonnay 08, compos boa parceria com a truta. O Valdesil de Valdeorras não provei, ficarei mais atento na proxima.

Segundo prato:

Lombo de porco recheado.

Tian de Aubergines

Figo

Pinhão ao molho de amoras

O lombo estava alem do ponto de cozedura, seco. A linguiça do recheio apimentada demais. Quase causou um estrago ao Julio, que é alergico a pimenta. O vinho foi Serna Imperial Reserva 2001, um riojano classico de boa estirpe, a Tempranillo a sobressair do corte, com as especiarias, os tostados, tanino fino e elegante. Gastronomico, combina bem com o porco, deu sobrevida ao lombo.

Sobremesa:

Balket Alasca ( camadas de pão de ló e sorvetes de creme, morango e chocolate )

Aqui voltei ao Moscatel de Setubal Bacallhoa 2004, por tradição. Estranharam-se, os lacteos do creme talvez o chocolate, faziam desaparecer o mel, a laranja do Bacalhoa e assim tinhamos duas sobremesas, o doce e o vinho por vez. O PX El Maestro Sierra, por outro lado, potencializava os sabores cremosos e do chocolate, a sobremesa tornava-se uma só. Muito bom este PX do Jerez.

A atenção aos pratos fica prejudicada numa festa como esta. O que conta aqui é a emoção de estar presente, de por a todo uso a mais humana das carateristicas, falar, ouvir, trocar conhecimento, alegria, comunicar.

Foi no meio disto que os "Tambulados” foram chamados. Depois dos discursos, dois confrades receberam tambuladeiras. Coube-me a honra de condecorar o Humberto Carcamo, ao Julio Anselmo a de o fazer ao Saraiva, que não estava presente e foi o primeiro tambulado condecorado à revelia, dormindo. Recebeu a tambuladeira no dia seguinte, com testemunhas e foto.

Seguiu-se a tradicional e muito esperada distribuição de brindes do sorteio. Na nossa mesa todos iam sendo sorteados, mas os numeros da Ana e do Julio não apareciam. Sorte no amor azar no jogo, diz o ditado. Por fim a Ana recebeu seu vinho, mas o numero do Julio nunca apareceu, não estava no saco. É muito amor meu amigo, é muito amor :D.

Para que não saisse de lá triste e como o unico não sorteado, a comissão de frente deu-lhe um vinho, JP Terras de Azeitão tinto.

Era já outro dia quando acabou tudo, nos rostos de todos estava estampada a felicidade de termos participado de mais um VAM, a certeza de que, se o Pai nos permitir, estaremos no proximo.

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