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Monte Athos – Vinho orgânico num passado sagrado
30-abril-12  MundoVino

Visitando a Grécia, por ocasião do Concurso Internacional de Thessaloniki, tive a oportunidade de conhecer, a convite da vinícola Tsantali, um lugar absolutamente especial, Monte Athos.

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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MOUNT ATHOS

Sob esse nome se encontra um dos “dedos” da península da Macedônia Central (Makedonikos), no norte da Grécia, território pertencente e administrado por um conjunto de mosteiros monásticos filiados à Igreja Ortodoxa da Turquia. Com 1200 anos de idade, essa comunidade de monges vive isolada em um ambiente mantido natural por todo esse tempo. No passado, milhares de monges faziam aqui seus estudos religiosos. Com suas roupas escuras, chapéus retos e suas fartas barbas, são personagens do tempo que preservam esse patrimônio histórico e ambiental tão valioso, enquanto se aprofundam em sua vida religiosa.

Mount Athos é uma “costela” de elevação que se estende por 50 quilômetros para dentro do Mediterrâneo, com altitudes entre 200 e 600 metros, culminando no Monte Athos propriamente dito, um majestoso pico com 2030 metros de altitude, no sul da península. O nome utilizado pelos monges para o pico é Monte Sagrado.

Tudo, mas tudo mesmo que acontece por ali é coordenado, fiscalizado e também feito pelos monges. Vegetarianos, eles plantam, cozinham, produzem seu vinho e azeite e perpetuam uma vida simples de meditação e estudo da religião há séculos, com o especial resultado de manter seu território absolutamente virgem, natural e intocado pela moderna civilização, obviamente, sem ser destruído ou poluído por ela. Imagino como os resorts multinacionais sonham com esse lugar...


Ouranopouli, uma torre Bizantina que domina o porto de onde saem os barcos para o porto Daphni e a visita aos mosteiros.

Saindo de Thessaloniki, cidade com um porto importante e longa participação na história desde 300 A.C., , atravessamos a Macedônia Central até o lado oeste, chegando à entrada da península. Uma torre bizantina antiga, Ouranoupoli, marca um pequeno porto, onde os visitantes autorizados devem tomar um barco que margeia a ilha por duas horas até outro porto, #i#Daphni#i, 25 quilômetros adiante. Dali um pequeno ônibus faz visitas a alguns mosteiros, um trajeto de que culmina com a chegada ao topo do Monte Athos, onde existe uma pequena igreja dedicada à mãe de Deus. Segundo a tradição da igreja ortodoxa, apenas homens podem entrar na comunidade monástica de Monte Athos.

Por triste coincidência, o tempo esteve chuvoso, frio e cheio de neblina, então a visão magnífica do Mediterrâneo e do restante da Macedônia estava bloqueada. Nenhum problema, porque a principal beleza desse lugar está no interior, como (quase) dizemos de nós mesmos...

Aqui existem 20 mosteiros, 17 deles pertencem à Igreja ortodoxa Grega, um à Igreja Russa, outro à Bulgária e o último à igreja Sérvia. Além disso, existem pequenos mosteiros espalhados pela península, pertencentes às igrejas. Esses mosteiros são muito antigos e foram mantidos e reconstruídos de incêndios e desabamentos ao longo dos séculos. Impressionantes fortalezas apoiadas sobre os montes rochosos, os mosteiros são uma lembrança de tempos antigos que se mantém viva e funciona (quase) do mesmo jeito. Aqui a eletricidade chegou há apenas 15 anos!

METOXI CHROMITSA

Com o mau tempo, nada de barco, visitaremos apenas a primeira localidade da península, Chromitsa, onde há 40 anos a vinícola Tsantali implantou vinhedos com autorização dos monges e produz vinhos sob o nome Metoxi Chromitsa, designação da localidade onde fica o primeiro mosteiro, Saint Panteleimon, pertencente à igreja russa.

Entramos no perímetro fechado que demarca a área sob jurisdição dos mosteiros e partimos. Após atravessarmos alguns riachos, subimos por tortuosas estradas naturais abertas no solo arenoso, cheio de valetas e poças devido às chuvas dos últimos dias. Após a segunda curva, nenhuma lembrança da civilização: o tempo parece ter recuado alguns séculos, pois tudo que se vê são arbustos das mais variadas cores e formas, muitas oliveiras, curvas vertiginosas no caminho que sobe sempre. Se fôssemos viajar até o fim da península por essas estradas, em vez do barco citado, levaríamos umas 10 horas em veículo 4x4. No passado essa viagem levava uma semana com mulas de carga.

Ao longe e acima, construções antigas, torres de capelas, prédios imponentes de pedra. Ao longo do caminho, pequenos oratórios de madeira esculpida marcam a paisagem com suas cores intensas e nos fazem lembrar o propósito desse lugar.


Vinhedos subindo as colinas e ao longe o conjunto de mosteiros

OS VINHEDOS

No meio da subida surgem os primeiros vinhedos: faixas arenosas amareladas, crivadas de cascalho granítico, servem de tapete para videiras nuas, quase negras por estarem molhadas. A topografia é tortuosa, obrigando cada vinhedo a se separar dos outros, em terraços e lombadas não maiores que alguns poucos hectares, às vezes nem isso. A vinicultura aqui é bastante trabalhosa, tudo é feito à mão ou com pequenos veículos e máquinas. Vinhedos de 10, 20 e até 40 anos se alternam, e também as variedades: Xinomavro, Limnio, Cabernet Sauvignon, Grenache Rouge, Assyrtiko, Athiri, Chardonnay.


Vinhedos de até 40 anos ocupam trechos das colinas ascendentes

Um ponto importantíssimo: como esse lugar se manteve (e continua) intacto por séculos, todo o território é certificado como orgânico, garantindo vinhedos saudáveis, sustentáveis e abençoados. Essa parceria levou anos para ser efetivada, mas hoje a Tsantali goza de alta reputação junto à comunidade ortodoxa por seu trabalho de recuperação e conservação do território e do patrimônio. O presidente russo Vladimir Putin, visitando o local, declarou de livre desejo em meio à solenidade seu agradecimento à Tsantali por sua contribuição.


O presidente Putin em visita ao mosteiro de Saint Pateleimon

PARADA NO TEMPO

Breve parada numa casinha de pedra, construção totalmente restaurada pela Tsantali, pousada em um promontório privilegiado, com impressionante vista para o Mediterrâneo, o pequeno porto, os vinhedos e os mosteiros próximos. Originalmente a construção estava oculta nos arbustos, abandonada sabe-se desde quando, mas hoje é usada como local de reuniões e degustações, com jantares no terraço de pedra debaixo do caramanchão de videiras, tudo muito rústico e arrumadinho.


A casinha recebe os visitantes para degustações com vista para o Mediterrâneo

Novamente não se sabe em que ponto o tempo parou, tamanha a grandeza do silêncio e a sensação de paz desse lugar. Somos despertados de volta ao futuro pelo motorista Dimitri, que nos traz Tsipouro (a grapa grega), café grego (preparado sem coar o pó grosso), e um cubo de Delícia Grega (na realidade, Delícia Turca), uma gelatina saborosa revestida de pó de açúcar. Esse brinde é uma tradição de boas vindas ao Monte Athos e nos permite momentos de silêncio e reflexão com a brisa marinha e a visão desse lugar misterioso, marcados por esses sabores tão gregos.

Na saída, Dimitri recolhe uma placa de pedra de uns 8 quilos que o vento da noite arrancou do topo do muro e jogou sobre o telhado, quebrando várias telhas. Forças livres da natureza aqui se mostram sem timidez.

Continuamos subindo, chegando aos vinhedos mais altos do conjunto de 100 hectares (!), agora perto de 350 metros de altitude. Aqui fica o conjunto de edifícios seculares do mosteiro St. Panteleimon, onde um dos blocos foi destruído por incêndio e desabamento. A Tsantali está restaurando esse conjunto e pretende implantar aqui uma unidade de produção, para evitar o transporte (e o stress) das uvas dos vinhos Metoxi Chromitsa até sua unidade principal em Halkidiki, distante 100 quilômetros. Isso também contribuirá para uma futura classificação da produção local no sistema de Denominações de Origem da vinicultura grega.

SAINT PATELEIMON

A visão do conjunto monástico é impressionante, pela rusticidade das construções e pela delicadeza do ambiente, onde o tempo corre mais lento e tudo parece estar ali desde sempre. O silêncio permite ouvir apenas o vento e gaivotas ao longe, um privilégio raro no mundo moderno. Os monges o desfrutam há séculos...


O conjunto de mosteiros, destruído pelo tempo, está sendo restaurado pela Tsantali

Estamos no primeiro conjunto, onde muitas partes ainda destruídas, inclusive a igreja, nos lembram sua idade. O prédio frontal já está restaurado, abrigando um porão com poderosas paredes e colunas de pedra, onde tanques e barricas já dão uma noção do futuro uso: abrigar a produção local do vinho e sediar eventos de apresentação, reuniões e visitas ligadas ao vinho. As antigas pedras continuam a guardar seus segredos e criam um ambiente acolhedor e misterioso, a meu ver bastante adequado para o vinho.


A cave subterrânea está sendo equipada para a futura produção local

No andar superior, os pequenos quartos outrora usados pelos monges foram restaurados e mobiliados para funcionar como hospedagem, alguns foram agrupados para formar quartos (menos) pequenos que os demais. Uma cozinha rústica, uma sala de estar e uma tradicional varanda da arquitetura macedônica, bastante adaptada ao clima e aqui à visão privilegiada da paisagem Mediterrânea. Por alguns momentos pode-se imaginar a vida simples e tranqüila desse grupo de religiosos, e nos perguntamos sobre a parafernália moderna que temos hoje.

Muito trabalho e investimento e muito respeito à natureza e à religião marcam essa iniciativa única, implantando suavemente uma produção comercial de vinhos em um território tão difícil e especial. Por respeito aos preceitos, o pessoal de manutenção dos vinhedos também faz refeições vegetarianas, aqui saborosíssimas, preparadas com legumes orgânicos, azeitonas e azeite da produção local.

O TERROIR E OS VINHOS

Este terroir produz uma linha de vinhos de alta gama, dois brancos e três tintos, todos orgânicos, muito qualificados e – acima de tudo – altamente representativos do estilo da vinicultura grega, trazendo a personalidade de variedades como as tintas rústicas Limnio e Agiorgítiko, e a deliciosa branca Assyrtiko, suavizadas com uvas francesas em cortes mais palatáveis pelos consumidores mundiais.

As condições climáticas aqui são quase perfeitas, com sol de verão (mais de 2000 horas), poucas chuvas (151 mm / ano), e brisas marinhas vindas da costa. Essa combinação crias condições perfeitas para a maturação das uvas, com as noites frescas contribuindo para o desenvolvimento de elegância e aromas.

METOXI CHROMITSA WHITE

Um corte de Assyrtiko e Sauvignon Blanc de vinhedos de baixa produtividade, fermentados lentamente a frio. Com notas típicas de frutas tropicais, mostra frescor e complexidade, com final longo e saboroso.

METOXI CHROMITSA RED

Um corte de Cabernet Sauvigno e Limnio, com maceração prolongada e maturação em barricas de tosta alta por 8 meses. De cor profunda, mostra frutas ricas e muitas especiarias. Macio e complexo, com final de leve rusticidade e notas de chocolate.

METOXI CHROMITSA X RED

Um corte de Xinomavro (20%), Limnio (40%) e Cabernet Sauvignon (20%), plantados em solo pedregoso de boa drenagem. Fermentado em tanques de aço em temperaturas médias, após maceração prolongada e maturado em barricas francesas (45% novas), é uma produção limitada. Saboroso, potente e macio, mostra especiarias e frutas intensas, com taninos finos, notas florais e de pasta de tomate da Xynomavro e um final longo e complexo.

METOXI CHROMITSA X WHITE

Um corte de 20% Athiri, 50% Assyrtiko e 30% Sauvignon Blanc, é um branco denso e complexo, com notas de pera, pêssego, melão e pomelo, com toques cítricos. Estruturado, equilibrado e rico, é um vinho que reflete bem o terroir do Monte Athos.

METOXI CHROMITSA MOUNT ATHOS GOLD (KORMILITSA)

Um corte de Cabernet Sauvignon (70%) e Limnio (30%), fermentados em pequenos tonéis com maceração longa. Maturação em barricas francesas novas (várias origens) por 36 meses. Cor profunda, frutas vermelhas intensas, especiarias e baunilha, é um vinho robusto e fino, com taninos elegantes e final macio.

Estes vinhos são perfeitos embaixadores da milenar e rústica vinicultura grega, levando ao mundo a história, a tradição e a força de terroirs tão antigos. Yamas!

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