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Thessaloniki - Por dentro de um concurso de vinhos
12-maio-12  Evento

Apresento aqui uma reportagem sobre o 12º Concurso Internacional de Vinhos de Tessaloniki, Grécia e uma reflexão sobre concursos de vinhos e seus resultados.
As inúmeras nuances de avaliação sensorial de vinhos são demasiadamente simplificadas pelas notas e medalhas?
É possível conseguir uma avaliação que represente um consenso entre os consumidores?

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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CONCEITOS

Receber o gentil convite para participar como juiz na 12ª Concurso Internacional de Vinhos de Thessaloniki foi uma honra e um desafio: viajar até o outro lado do mundo para integrar um grupo de enólogos e enófilos estrangeiros, com a tarefa de degustar centenas de vinhos para eleger os melhores e a eles atribuir medalhas.

Nesta 12ª edição, participaram 609 vinhos, da Grécia e de outros oito países: Bulgária, Brasil, Chipre, Alemanha, Itália, România, Eslováquia e Turquia.

De acordo com o limite de 30% estabelecido pela OIV, foram atribuídas 174 medalhas, e o alto nível da participação ficou evidente:

2 medalhas Grande Ouro, 99 medalhas de Ouro e 73 medalhas de Prata.

Foi uma experiência muito interessante, tanto pelo lado técnico quanto pelas diversas discussões sobre o estilo dos vinhos gregos ( a maioria ), visto por ângulos diferentes pelos enólogos gregos e pelos especialistas internacionais. Falo mais sobre esse tema mais à frente.


O corpo de juízes do 12º Concurso Internacional de Vinhos de Thessaloniki, a equipe administrative e o grupo de apoio

O objetivo desse artigo é trazer ao público consumidor – e aos profissionais iniciantes - uma visão global de todo os aspectos de uma degustação e avaliação de vinhos, um processo que envolve muito trabalho, organização e seriedade, e culmina com a atribuição de notas e medalhas (ouro, prata, bronze...) aos vinhos considerados os melhores.

AVALIANDO VINHOS

Normalmente os consumidores apenas vêem notas referentes a vinhos em divulgações, reportagens, painéis temáticos, selos nas garrafas. Essa pontuação, como chamamos, é um instrumento de marketing apoiado nos resultados dessas avaliações, e tem como objetivo tornar mais fácil “medir” a qualidade de um ou outro vinho, bem como fazer comparações entre qualidade e preço.

Dessa forma, ao usarmos notas numéricas permitimos aos leigos no assunto lidar com os aspectos tão subjetivos da qualidade dos vinhos de forma mais imediata e óbvia, como se olhássemos um termômetro ou uma balança. Maior nota, melhor vinho, certo?

Sim e não. Esse assunto pode se estender bastante, se pensarmos que o mundo do vinho é tão rico, tão vasto e tão diverso que uma simples medida numérica representaria uma simplificação grosseira e absurda da qualidade, descartando os principais atributos que diferenciam um vinho de outro, independente da sua qualidade:

Estilo

Uma variação de características aromáticas e gustativas que formam uma “personalidade” sensorial. Por exemplo, existem rosés bem coloridos, quase vermelhos, outros de cor bem leve, pálidos. A diferença de cor não representa diferença de qualidade, mas de estilo. Países e regiões têm estilos específicos, enólogos também. Cada um na sua, qualidade é uma escolha.

Tipicidade

As inúmeras variedades de uva hoje utilizadas produzem vinhos que exprimem (ou não) seus atributos gustativos e aromáticos típicos, por exemplo: acidez, taninos, cor, complexidade. Nesse quesito entra também o estilo típico – consolidado ao longo de séculos - de cada região para produzir vinhos com uvas também típicas da região. Chamamos tipicidade a um conjunto de características que esperamos em um vinho, levando em conta a uva, a região e a proposta do enólogo.

Porém... muitas vezes um vinho muito típico de uma certa região pode não agradar a todos paladares. O Vinho Verde da região do Minho, Portugal, tem uma acidez intensa que é sua marca registrada, mas que não agrada a todos. Alguns produtores vêm “amaciando” seus vinhos com novas técnicas, buscando um ESTILO mais agradável aos paladares internacionais. A maior nota vai para o mais típico ou para o mais gostoso? Difícil, não?

Potência

Mesmo usando uma mesma uva, dois enólogos podem produzir vinhos distintos: um muito potente, estruturado, buscando impacto, e outro mais sutil, elegante, buscando leveza. Vamos complicar? Potência pode ser ligada à tipicidade e até ao estilo, mas por si só não podemos dizer que um vinho mais potente é melhor que outro menos potente.

Equilíbrio

Os diferentes aspectos gustativos dos vinhos – Taninos, acidez, madeira, fruta, podem ter níveis diferentes. Dizemos que um vinho é equilibrado quando o impacto dos diferentes atributos forma um conjunto sem altos e baixos, mais harmônico e agradável. Vinhos de alta qualidade geralmente mostram um equilíbrio muito bom, mas... nem sempre o melhor é o mais equilibrado. Outro exemplo: os tintos do sul da Itália são potentes e tânicos, feitos com uvas regionais de estilo bem rústico. Se o enólogo fizer um “amaciamento” o vinho perde sua tipicidade, criando outro estilo. Eu avisei que era complicado...

Esses pequenos exemplos mostram que na avaliação de um vinho devemos usar critérios adaptados à sua região / país, ao estilo típico esperado, à categoria (branco, tinto, rosé, seco, doce, espumante, frizante, licoroso) e, quando formos comparar dois vinhos, que sejam da mesma categoria, para não misturar os critérios.

Não quero dizer que as notas são um equívoco, mas apenas lembro que um simples número não pode nunca mostrar tantas nuances. Trocando em miúdos: Podemos gostar muito de um vinho mediano de nota 79 e não amar um vinho de nota 95. Mas por quê? Por causa do estilo, da tipicidade, da potência e do equilíbrio, e muitos outros quesitos que formam nossa preferência pessoal, nosso maior critério de julgamento, afinal.

Juízes de vinho devem colocar de lado sua preferência pessoal e se concentrar nos aspectos técnicos dos vinhos, para conseguir avaliá-los de forma imparcial.

CRITÉRIOS

Vejamos outro importantíssimo lado desse assunto: As notas são justas, honestas, confiáveis? Se não o fossem, todo o processo de divulgação baseado nelas seria falso e estaria enganando os consumidores, não é mesmo? Por isso, os concursos e avaliações precisam se basear em seriedade e transparência, para garantir justiça e credibilidade.

A OIV ( Organização Internacional da Vinha e do Vinho) é uma instituição mundial de caráter normativo à qual se associam todos os países que desejam ter presença e reconhecimento no mercado mundial de vinhos, tendo essa filiação regras e benefícios.

Uma das importantes funções da OIV é estabelecer normas para concursos de vinhos e fiscalizar sua realização, para garantir exatamente a transparência e a credibilidade dos resultados. Alguns exemplos são

- Estabelecer uma ficha de avaliação padronizada para as degustações

- Definir categorias para os diversos tipos de vinhos

- Estabelecer procedimentos para a coleta de amostras (os vinhos), sua manipulação e sigilo.

- Fiscalizar a realização dos concursos pela presença de um delegado no local

- Estabelecer critérios para a qualificação do corpo de juízes

- Estabelecer normas para o processamento e cálculo dos resultados ao final das degustações

Como podem ver, esses (e outros) aspectos apontam para uma uniformidade dos concursos, com o simples e importantíssimo objetivo de se poder comparar premiações a qualquer tempo: uma medalha de ouro é uma medida de qualidade dentro dos padrões da OIV.

AS DEGUSTAÇÕES

Vejamos como tudo isso acontece, passo a passo:

1 – As vinícolas se inscrevem em um concurso, enviam certo número de garrafas para cada um dos vinhos inscritos, e pagam uma taxa operacional que custeará a realização do concurso.

2 – A direção do concurso cataloga as amostras e prepara lotes de degustação por categoria. Cada vinho tem um número que será usado pelos juízes nas fichas de degustação.

3 – Enólogos, jornalistas, escritores e profissionais do vinho são convidados para formar um corpo de juízes para as degustações. Essa seleção se baseia em credibilidade, experiência e notoriedade dos degustadores, e ao mesmo tempo forma um painel de grande diversidade pessoal.

4 – Administração e juízes se reúnem numa sede do concurso, geralmente um grande hotel, onde toda a operação acontecerá ao longo de vários dias. Quanto maior o número de vinhos inscritos, mais juízes (e/ou dias) são necessários.


Visão do salão de degustações, cada fileira de juízes forma um grupo

5 – Os juízes são divididos em grupos de 5 a 10 pessoas, procurando-se manter uma diversidade homogênea entre os grupos, e um coordenador é escolhido entre eles. Antes de cada sessão de degustação o grupo se reúne para degustar um vinho escolhido aleatoriamente na categoria a ser avaliada, e se discute sobre aquele vinho, comparando as avaliações individuais, com o objetivo de equilibrar razoavelmente um critério de julgamento do grupo.


Os grupos se reunem para uma discussão preliminar antes de cada bateria de degustação, sempre “às cegas”, sem identificar nenhum vinho

6 – Começa a sessão de degustação: Cada juiz tem sua mesa de trabalho, com taças padronizadas, balde para cuspir, água e pães, fichas técnicas em branco. Cada juiz tem um número de identificação. Não é permitida a troca de impressões durante as degustações, que ocorrem em completo silêncio e concentração.


A mesa individual de trabalho de cada juiz: Cuspideira, água, pães, fichas de degustação, taças

7 – Os vinhos são trazidos numerados,embalados em sacos plásticos pretos folgados, apenas com o gargalo à mostra, impedindo sua identificação. O número é mostrado, o vinho é servido e o juiz preenche a ficha de degustação com número, categoria, sessão, seu número e sua assinatura.


Cada vinho é identificado apenas por um numero de participação

8 – Cada juiz degusta o vinho, marcando na ficha padronizada suas avaliações para os diversos quesitos. As fichas são levadas ao coordenador, que confere seu preenchimento e também as assina, formando um grupo oficial de fichas para cada vinho. Cada degustação dura 3, 4 minutos no máximo, então é necessária muita experiência e concentração para a esse trabalho.

9 – A cada lote de 15 vinhos, (aproximadamente 1 hora), faz-se uma pequena pausa. Podem-se realizar 3 ou 4 lotes por dia, o que se considera um limite para o trabalho qualificado dos degustadores, evitando variações de avaliação devido ao cansaço.

10 – Ao final das degustações, os resultados são apurados e conferidos pela equipe da administração. , expurgando as pontuações mais altas e mais baixas de cada vinho para se obter notas finais mais representativas de um consenso.


A equipe de administração do concurso organiza as degustações e processa os resultados

11 – As notas médias finais resultam em atribuição de medalhas, conforme o quadro abaixo:

Esse trabalho tão especializado tem como único objetivo avaliar vinhos e divulgar para o mercado e os consumidores os vinhos em destaque. Especialistas e conhecedores, exercendo em conjunto sua experiência na degustação de milhares de vinhos, constroem um critério de qualidade que se aproxima de um consenso dos consumidores de todo o mundo.

Uma medalha em uma garrafa de vinho na prateleira certamente nos diz que aquele vinho mereceu destaque após essa extensa avaliação.

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