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Qualidade e preço andam juntos... mas nem sempre.
03-novembro-08  Opinião

Notável descoberta de vinhos no Sul da França - o Château des Aveylans

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Artigo publicado no jornal Vinho & Cia. nº 35 - outubro/ 2008

Costumo dizer aos alunos iniciante que “não existe milagre”. Vinho bom tem seu preço, mas...

No último 11 de setembro, uma data de trágica lembrança, fui a uma apresentação de vinhos franceses, com a presença do diretor do Château des Aveylans, pequena vinícola do sul da França, trazida pela Porto a Porto.

Conversar com um produtor é sempre uma oportunidade interessante para obter boas informações sobre o trabalho de produção, dos vinhedos, além de pormenores dificilmente disponíveis em publicações ou com representantes. Se for um produtor francês, ainda tenho o prazer de exercitar esse encantador idioma e conseguir informações privilegiadas sobre seu trabalho.

Michel Artigues, diretor da vinícola, se desculpa por não conseguir responder a algumas (poucas) questões técnicas sobre enologia, minhas e de jornalistas presentes. Seu sócio e enólogo, explica, é Jean-Pierre Martin de Maureliian experiente profissional com 40 anos de consultoria em diversas regiões francesas, além de seus próprios Châteaux, les Aveylans no sul e mais outro na Borgonha.

Michel me conta que a propriedade se situa em Bellegarde, entre a Provence eo Languedoc, numa posição bem próxima dos limites do Châteuneuf -du-Pape, com características de solo bastante similares àquela prestigiosa denominação. Segundo ele, as condições de produção são tão similares que seus vinhos poderiam se classificar perfeitamente entre os melhores Châteuneuf, não fosse a questão da Apelação de Origem: les Aveylans não se encontra dentro dos limites abençoados pelo Papa.

A propriedade tem curiosa história: pertenceu à Ordem dos Templários, os Cavaleiros da Igreja, poderosa e rica congregação que caiu em desgraça e foi extinta por ordem do rei (dizem que por dívidas imensas). A vinícola usa uma cruz e o nome dos Templários em seus vinhos, resgatando essa tradição.

Os terrenos da vinícola (30 ha apenas) possuem uma camada de pedras com 28 m de profundidade, que armazenam calor para a noite e obrigam a videira a buscar seus nutrientes em profundo contato com o terroir.

Histórias, tradições e detalhes fluem animadamente desse simpático francês, enquanto provamos um agradável Costières de Nîmes rosé 100% Grenache, produzido com a primeira prensagem das uvas, mostrando elegantes frutas vermelhas e alcaçuz. Todos os vinhos de Aveylans são produzidos com leveduras naturais, em cultura orgânica, graças ao clima seco e ventilado, explica.

Três tintos tão diferentes quanto surpreendentes foram degustados:

O Cuvée dês Templiers 2005 (Costières de Nîmes) um corte de Syrah, Grenache e Viognier (surpresa, uma uva branca !) um tinto envolvente, aveludado e rico em frutas negras e especiarias bem ao estilo do Rhône (2 estrelas no Guide Hachette).

Seguiu-se o Mas des Aveylans Cuvée Prestige 2005, um Vin de Pays du Gard varietal de Syrah, rico em amoras, alcaçuz e especiarias, que já mereceu 92 pontos de Robert Parker com a frase “ uma das melhores relações qualidade-preço do mundo”! Aliando complexidade em um estilo levemente rústico, esse tinto encantou pela personalidade generosa e marcante, sem dever nada a um Châteuneuf -du-Pape.

Por fim o Mas des Aveylans Syrah 2005, Vin de Pays d’Oc (90 pt Parker) mostrou a versatilidade criativa do enólogo, num vinho elaborado sem madeira, com extração curta em maceração semi-carbônica, cheio de frutas negras frescas e especiarias doces, num conjunto macio, agradável e único.

O que temos aqui ? Notas de degustação, conversas com mais um produtor do sul da França... algo mais ?

Quando os preços dos vinhos apresentados foram anunciados, todos os presentes se assustaram, pois a alegação de Parker do ótimo custo-benefício é mais que verdadeira, mesmo para o mercado brasileiro (pior ainda,o mineiro).

Michel Artigues e Pierre Martin produzem vinhos que, se estivessem classificados como os nobres vizinhos do Châteuneuf -du-Pape custariam 4 a 6 vezes mais, e não fariam feio nessa elevada contenda. Sustentam decisões cruciais para a qualidade, como métodos diferenciados de elaboração e baixa produtividade nos vinhedos. Poderiam produzir o dobro, mas não o fazem. Insistem em qualidade, com menor lucro.

Este é um ótimo exemplo de como boas surpresas podem surgir nas denominações menores (sem demérito...) e o sul da França é um celeiro delas, vale o garimpo...

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