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Vinhos da África do Sul, o novo Velho Mundo
20-novembro-12  MundoVino

A África do Sul reinventou sua vinicultura desde a mudança política, surgindo nesse período centenas de pequenas vinícolas se dedicando a explorar a qualidade do terroir do Western Cape.
Os vinhos sul-africanos têm um estilo bastante elegante, podendo ser posicionados entre o Novo e o Velho Mundo.

CARLOS ARRUDA

Arquiteto, web designer, enófilo, professor, consultor e autor de artigos sobre vinhos, criador e diretor do site Academia do Vinho.

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Por ocasião da feira Cape Wine realizada em setembro/2012 na Cidade do Cabo, África do Sul, tive oportunidade de visitar vinícolas em algumas regiões do Western Cape, região circundante do Cabo. As descobertas não poderiam ser melhores.

A indústria vinícola da África do Sul vem se reinventando desde a instauração da democracia no país, há quase 20 anos.


Vinhedos em Tulbagh, África do Sul

Apesar da atividade vitivinícola sul-africana ser bastante antiga, as últimas décadas foram de forte estagnação. A atividade principal era a de plantadores de uvas, todas vendidas para as cooperativas estatais, que não chegavam a 80.

O vinho produzido era apenas básico e sem personalidade, não fazendo mérito à grande diversidade de terroirs disponíveis, nem à consequente diferença de qualidade nas uvas ali produzidas. O foco era volume, para fazer dinheiro.

Com os ventos da liberdade, a grande maioria dos viticultores, muitos de famílias tradicionais na atividade, decidiu fazer seu próprio vinho, investindo em suas propriedades, adotando técnicas modernas de elaboração e, principalmente, mudando o foco de cultivo da quantidade para a qualidade.

Neste panorama atual as mais de 600 vinícolas em operação têm entre 8 e 15 anos de atuação. Os vinhos hoje produzidos são criações recentes, muitos em sua terceira ou quarta safra, produto de novos vinhedos e de novas concepções.

As regiões produtoras, algumas tradicionais, como Stellenbosch, outras emergentes, como Tulbagh, compartilham um clima ameno com fortes influências dos gelados oceanos Atlântico e Índico nas áreas costeiras do Western Cape, e também um clima mediterrâneo nas regiões interiores.

As estações são bem marcadas, com invernos que podem ficar rigorosos e verões quentes e secos, que obrigam ao uso de irrigação. Açudes são comuns em todas as áreas de plantio, onde também se cultivam muitas frutas para exportação. A água não é abundante, obrigando a investimentos para sua obtenção.

AS UVAS

Daqui sempre se comentou a uva Pinotage, criada em 1925 por Abraham Izak Perold, o primeiro professor de Viticultura na Stellenbosch University, a partir de um cruzamento entre Pinot Noir e Cinsault. Com técnicas de cultivo inadequadas, essa uva nacional criou conceitos negativos devido a seus aromas estranhos de petróleo. Hoje o manejo correto de vinhedos e o aprendizado refinado fizeram desaparecer por completo esse estilo indesejado, mostrando uma Pinotage de vinhos saborosos, elegantes e ricos, que inclusive variam de estilo conforme os microclimas e solos disponíveis: a elegância de Pinot Noir nos microclimas mais frios e a estrutura da Cinsault nos mais quentes.

Os rosés sul-africanos são quase sempre feitos com a Pinotage, explorando a delicadeza e elegância de seu estilo Pinot Noir.

Porém, outras variedades pontuam o cenário vinícola sul-africano com qualidade, principalmente as francesas do Rhône, Borgonha, Bordeaux e Val de Loire.

Syrah / Shiraz – Talvez a maior vedete da atualidade, produz vinhos elegantes, poderosos, ricos e sofisticados, no melhor estilo do Rhône superior.

Grenache, Mourvèdre – essas companheiras da Syrah se mostram muito típicas e equilibradas, seja em vinhos varietais ou no tradicional corte GSM do Rhône (Grenache-Syrah-Mourvèdre)

Chenin Blanc – Muito difundida, essa elegante uva branca do Loire detém aqui a supremacia entre brancas, seja em vinhos básicos saborosos ou em elegantes criações barricadas, envolventes e ricas. Surgem também alguns vinhos de sobremesa.

Chardonnay – Essa uva tão versátil mostra aqui todo seu potencial, seja em vinhos básicos jovens ou em nobres caldos fermentados em barrica, intensos e untuosos.

Sauvignon Blanc – A aromática vedete neozelandesa se revela aqui mais elegante e equilibrada, não tão explosiva, com vinhos agradáveis que não beiram o enjoativo.

Merlot – Esta elegante dama francesa se mostra aqui em todo seu estilo, com vinhos varietais sedosos e ricos, ou em cortes, onde aporta elegância e maciez.

Cabernet Sauvignon – A deusa de Bordeaux mantém sua realeza, em vinhos potentes, elegantes e intensos, com notas especiadas menos marcantes que no Médoc.

Cape Blend – O corte típico do Cabo, Pinotage - Cabernet – Merlot é um vinho agradável, equilibrado, saboroso e de ótima personalidade, marcando esse território com um estilo único, definitivamente cativante.

Minha convicção é que a áfrica do Sul é a mais europeia das regiões vinícolas do Novo Mundo, encontrando-se hoje a um passo de surpreender o mercado internacional com vinhos autênticos, elegantes e únicos. Minha dica é experimentá-los com urgência, atenção e informalidade, fazendo jus ao alegre povo daquele país.

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